As reticências que às vezes se colocam na aquisição de um automóvel coreano já praticamente não existem. A nova geração do Kia Rio quer provar que é possível ser melhor que muitos dos modelos que o mercado gosta, esquecendo questões como imagem de marca ou valor de retoma. Vejamos como evoluiu o segmento B da Kia, pensado e construído na Europa para a Europa.

As marcas coreanas dispensam apresentações. Kia e Hyundai, construtores que pertencem ao mesmo grupo automóvel souberam construir os seus alicerces na Europa. A forma como têm conquistado o mercado com produtos cada vez mais atrativos é o melhor exemplo de boa gestão. O Velho Continente está rendido, todavia, em alguns mercados, como o português, ainda existe alguma resistência (cada vez menos) à compra de um automóvel coreano. E, muitas vezes, nem os períodos de garantia recorde ou os descontos “canhão” no preço final são suficientes para cativar o cliente português.

A chegada da nova geração do Rio ao mercado nacional (onde representa 35% das vendas da Kia) motivou um comparativo com dois sucessos comerciais. Um mais antigo, mas implacável na forma como se apresenta ao mercado (e as vendas falam por si), o Opel Corsa, e um segundo, mais moderno e radical e com créditos firmados, o novo Citroën C3. Para primeiro embate, escolhemos os motores que serão dos mais vendidos e com os níveis de potência mais equilibrados entre si. No caso do modelo alemão, o único com turbo, temos o 1.0 de 90 cv, no francês, o 1.2 Puretch de 82 cv e no coreano, o 1.2 CVVT de 84 cv. Quanto a preços, o Kia é o mais caro, mas também o que oferece a melhor relação preço/equipamento... 16 201 euros na versão EX já contabilizando o desconto direto de 2500 euros. O Citroën, nesta versão Feel, custa a partir de 14 350 euros, enquanto o Opel com o pequeno 1.0 turbo e nível de equipamento Dynamic é vendido por 14 400 euros ao abrigo de uma campanha que “tira” no preço final um valor de 1500 euros.

Sempre seguros

Enumerando os dispositivos de segurança, o C3 sai na frente. Entre os seis airbags já habituais, que são comuns aos três, o Citroën inclui de série na versão Feel o avisador de transposição de faixa de rodagem. É verdade que emite apenas um sinal sonoro, mas é o suficiente para alertar o condutor. O ESP também faz parte da lista de equipamento de série dos três. No item montagem e pintura, o modelo francês leva vantagem por contemplar os “airbumps” (200 euros), as almofadas nas portas que previnem alguns toques urbanos, mas nas garantias a vantagem do Kia é avassaladora. Os 7 anos ou 150 mil km não dão qualquer hipótese aos habituais dois anos dos modelos europeus. Analisando as bagageiras, o coreano volta a levar vantagem sobre Corsa e Citroën. Nesta nova geração, o Rio ganhou 37 litros de volumetria na mala, subindo aos 325 litros no total. O C3 tem uma capacidade de 300 litros enquanto o Corsa mantém os 285 litros habituais. A mala do Opel e do Kia têm o acesso mais amplo, por culpa de carroçarias mais “normais” em termos de design, e a do Opel tem ainda um fundo falso que consegue compartimentar este espaço.

Passando ao habitáculo, convém não esquecer que o Rio apenas guardou o nome do anterior. É um modelo desenhado de raiz (utiliza a mesma plataforma do novo Hyundai i20), com um estilo próprio e muita personalidade. As dimensões exteriores cresceram, o que permitiu um aumento do espaço interior, levando o carro coreano a poder competir neste item com modelos do segmento acima. Logo aí ganha vantagem no espaço para ocupantes. A sensação de desafogo é grande e o espaço para as pernas muito generoso, permitindo que três adultos se sentem com à-vontade.

O Corsa não é tão desafogado como o Kia, mas acaba por conseguir acomodar com conforto dois adultos e uma criança atrás. O C3 é o mais acanhado e essa restrição é mais visível no espaço que sobra em altura e que obriga a alguns toques com a cabeça no tejadilho. Em solidez os três “soam-nos” a ser imunes a ruídos. Esta versão EX do Rio revela robustez sem quaisquer folgas. O mesmo acontece com o Corsa, que apesar da idade do projeto tem materiais “agradáveis” e uma sensação de solidez acentuada. O C3 é salvo pela aplicação de tecido em algumas zonas do tablier e pelo design moderno que ostenta, porque as folgas em determinadas áreas são suficientes para se verem alguns cabos elétricos. Felizmente, o facto de todos incluírem o volante e o punho da caixa (exceto no Citroën) forrados a couro remetem-nos para um ambiente de maior qualidade.

Sem pressas…

Na vertente dinâmica, e começando por um percurso com um pouco mais de curvas, rasgados elogios terão de ser entregues ao Corsa. É que, não obstante este ser um “motorzinho” 1.0 a gasolina, sempre tem turbo e debita 90 cv, que se “sentem” a pulsar para lá das 4500 rpm. Não é um prodígio dinâmico, mas o facto do motor ser o mais enérgico é o suficiente para tornar o modelo de Rüsselsheim no mais divertido de conduzir. O Citroën não é tão intuitivo. Para começar tem muito menos motor. Os 82 cv em conjunto com uma caixa longa não são os melhores ingredientes para subidas de curva e contracurva rápidas. O chassis é equilibrado, mas a falta de tato dos principais comandos faz com que o Citroën saiba a pouco. Tem a vantagem de ser o mais confortável do trio, ainda assim, a suspensão é ruidosa em alguns tipos de piso. O Rio tem um bom motor, que dá a sensação de andar muito mais do que aquilo que depois observamos na nossa ficha de medições. Pelos números, as recuperações são lentas, mas ainda assim conseguem superar as do C3. A direção melhorou muito face a gerações anteriores e a frente tem agora a impetuosidade que nunca teve. Se o motor fosse um pouco mais enérgico, o novo Rio ganhava outras credenciais dinâmicas. A Kia está no bom caminho.

Pela cidade, Corsa e Rio acabam por ser os melhores… O Opel tem o modo City da direção que a transforma numa “pena” para as manobras urbanas, mas também conta com a suavidade do motor em baixos regimes. A caixa não é das mais suaves, mas as trocas sucedem-se de forma intuitiva. Os bancos são demasiado firmes. Quanto ao Kia, também não fica mal na fotografia. Suave e lesto q.b. dentro da cidade, o modelo coreano conta com a ajuda da câmara de marcha-atrás de série para as manobras urbanas. É macio a rolar e dispõe da caixa de velocidades mais fluída deste trio. Passando ao Citroën, peca por uma caixa áspera e por um motor que mostrou alguma dificuldade em lidar com subidas íngremes, mesmo com duas pessoas a bordo, longe das cinco admissíveis, obrigando a uma utilização excessiva da embraiagem nos arranques desnivelados. Sem o sistema auxiliar de arranque (hill holder) fornecido de série, como aliás acontece nos outros dois modelos, a embraiagem teria uma vida difícil. No conforto, tem de longe os bancos mais fofos, o que não agrada a todos os utilizadores nas viagens longas. A vitória sorri ao Rio e as razões são várias: porque é o mais espaçoso, porque tem um nível de conforto muito bom, por ser o que oferece a garantia mais alargada e por ter a melhor relação preço equipamento nesta versão EX. O Corsa tem no motor a sua mais valia e é o único que permite sair da cidade sem “esforço”. O C3 é um bom compromisso e o que atrai mais olhares, mas precisa de rever a anemia do motor e o tato de alguns comandos.

O Rio venceu a primeira batalha, mas não será fácil manter o posto.

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