Depois do C4 Cactus, a Citroën pretende manter a onda de irreverência que tem caracterizado a marca, reforçando-a esta semana com o novo utilitário C3, que corta com o passado, mostrando o lado mais jovem da marca.  Apela à paixão, mas tem de lutar com “pesos” já estabelecidos e que fazem da razão e pragmatismo o seu cartão de visita.

Agradar a gregos e a troianos é o mote do novo C3. É com ele que a Citroën espera vingar num mercado europeu que começava a esquecer a marca francesa. O C4 Cactus veio revitalizar a imagem e o poder de um fabricante com anos e anos de história, mas toda a restante gama de produtos tem vindo a cair no esquecimento. Aproveitando o sucesso e a aceitação do Cactus, o pseudo-SUV francês de design arrojado e pouco convencional, a marca do “double chevron” deixou de lado todo o pragmatismo que lhe assiste e voltou a inovar com a nova geração do C3. O desenho resulta do centro de estilo da marca e de várias opiniões recolhidas nas muitas “clínicas” de prospeção de tendências, numa tentativa de agradar a todos os gostos. Por cá, gostamos da frente, das proporções gerais, do aspeto de crossover, do ar irreverente, ou seja, tem tudo para continuar a ser um verdadeiro Citroën.

Pragmatismos à parte...

Para perceber se a razão suplanta o pragmatismo que a maioria dos utilitários (ainda) encerra, juntamos a este C3, dois automóveis que são autênticos “best-sellers” das respetivas marcas e do próprio mercado, exatamente com os motores aqui considerados.  O Corsa surge com motor 1.0 turbo de 90 cv, logo tem uma ligeira vantagem mecânica, e um preço que arranca nos 15 900 euros bem como 5 anos de garantia. O Polo traz um mesmo motor 1.0 sem turbo com 75 cv, um preço de 17 727 euros (a suposta qualidade VW faz-se pagar) e também cinco anos de garantia na ficha de veículo. O C3 vem equipado com o motor 1.2 VTi de 82 cv por 14 350 euros, com a vantagem de oferecer 1600 euros em equipamento.

No Citroën, vai encontrar poucos componentes do anterior C3 a não ser a plataforma. O exterior foi inteiramente redesenhado e o habitáculo foi totalmente remodelado. O crescimento das dimensões exteriores e as soluções estilísticas adotadas transportam-no para o futuro, ficando o Polo e o Corsa cada vez mais remetidos para o papel de conservadores de serviço. O que o VW e o Opel perdem em frescura de estilo, ganham em facilidade de utilização. Ainda assim, e apesar do estilo e da carroçaria de formato menos convencional, o Citroën consegue uma boa dose de espaço interior e a versatilidade certa para concorrer num segmento que procura espaço, pois muitos destes carros são o “carro” lá de casa.

Motores e Companhia

Por terem motores de baixa cilindrada (todos com três cilindros, uma moda que veio para ficar pois são mais baratos e leves que os de quatro cilindros), bastam pequenas diferenças de potência e de complementos mecânicos para provocarem diferenças de andamento importantes. O Corsa é o único que por este preço oferece um motor 1.0 turbo, logo tem o mais potente (90 cv) para ser o mais despachado, mais ágil e com acelerações e recuperações que não envergonham nenhum pequeno familiar de motor idêntico. O C3 tira bom partido do motor sempre voluntarioso, vantagem evidente em 2ª e 3ª. Já o Polo, com a sua 5ª mais curta e um motor que respira bem em regimes mais elevados consegue ganhar também alguma vantagem em auto estrada face ao C3, pois é de todo impossível suplantar a rapidez do Corsa, com que recupera ou com que acelera. Curiosamente, o motor 1.0 do VW dá gosto “puxar” para além das 5000 rpm, quando revela um ganho de energia inesperado sem o ruído da unidade da Citroën. Esta precisão, progressividade e qualidade de tato de comandos são extensíveis à embraiagem e direção, o que somando a melhor insonorização faz do Polo o carro mais refinado de conduzir e aquele com um aspeto mais premium. O Opel Corsa também possui comandos justos e precisos mas ligeiramente abaixo em matéria de harmonia, enquanto o Citroën peca por uma direção demasiado leve e um conjunto caixa/embraiagem em que a primeira é barulhenta e pouco precisa e a segunda peca por uma pega algo brusca. Isto faz do modelo francês o mais complicado de conduzir com suavidade.

E a curvar?

Falar de comportamento num comparativo com carros 1.0 parece redundante, mas, e mesmo com o motor o 1.0 mais básico, o Polo assegura um guiamento impecável das rodas e entra em curva com uma determinação de assinalar, mas é no conforto de rolamento que sobressai. Com jantes de 16” e uma robustez assinalável passa no mau piso sem dar sinal de fraqueza. No Corsa, e pelo facto de possuir o motor mais potente e com turbo a experiência de condução sai a ganhar e, embora não seja tão interativo quanto o Polo, é natural levá-lo para uma sequência de curvas, até porque, como já foi referido, este 1.0 pede que “puxem” por ele. O compromisso eficácia/comodidade está muito bem assegurado.

Dos três, o C3 é o que menos entusiasma um condutor mais empenhado. A suspensão muito branda não sustém à primeira as oscilações da carroçaria, os pneus em jantes de 16” não lhe permitem fincar-se ao asfalto com a mesma acutilância destes rivais e a atuação do ESP é demasiado percetível. O que o Citroën tem para dar em doses largas é conforto e se o bem-estar a bordo e o “dar nas vistas” é o que mais preza, então estará a considerar o carro certo…

No final deste comparativo, fica bem claro que o C3 tem plenos argumentos para vingar, até mesmo com este 1.2 VTI, que será um dos mais vendidos. O Polo merece que se faça um up-grade” de motor. É também o mais caro, mas, mesmo assim, tem sempre aquele nível de qualidade e refinamento que nenhum outro tem no segmento. O Corsa espera nova geração, mas este 1.0 Turbo faz esquecer muitos dos pontos negativos e das lacunas que já apresenta face à concorrência. E, para além disso, é o único que permite um andamento fora da cidade mais completo.

Assine Já

Edição nº 1437
Já nas bancas

Digital Papel

Top

Os mais recentes